Nota da autora:
Quando eu era criança, visitei o apartamento de uma amiga da minha mãe. Era pequeno, silencioso, e tinha um pote de chocolate na sala. Não lembro da disposição dos móveis, nem da decoração, mas lembro da sensação: aquele lugar parecia o retrato perfeito da liberdade. Uma televisão enorme, o silêncio que só existe na ausência de filhos, e o doce disponível sem precisar dividir.
Naquele dia, decidi que um dia moraria sozinha. Aquilo se tornou meta.
Hoje, aos trinta, moro sozinha. O sonho se realizou — mas só em parte. Meu apartamento é alugado e custa 70% do meu salário. A televisão está ali, mas não funciona. Ainda assim, deixo ela na sala. Talvez porque ocupe espaço, talvez porque me ajude a manter viva a ideia de que um dia tudo vai funcionar. O pote de chocolate? Nunca existiu. Não cabe no orçamento.
Apesar disso, não considero que foi uma má decisão. Morar sozinha sempre foi um desejo profundo, antigo. A liberdade de estar comigo mesma, de organizar as coisas à minha maneira, de viver no meu próprio tempo. Mas é impossível ignorar o preço que essa liberdade cobra.
Meu salário é baixo, mesmo com um bom nível acadêmico. No começo, era frustrante demais. Doía. Chorei muitas vezes por não conseguir pagar o básico, por não poder sair, por precisar racionar a comida do mês. As limitações financeiras me sufocavam e, às vezes, ainda sufocam.
Aprendi a não reclamar tanto. Tento ser grata pelo que tenho. Isso me ajuda a valorizar o pouco que conquistei. Não tenho muito, mas tenho um teto, uma cama, alguma comida e, sobretudo, paz. Sei que isso já é mais do que boa parte das pessoas têm.
Essa mentalidade me ensinou a não transferir para os outros o peso das minhas escolhas. A vida que eu levo é minha e não posso jogar sobre ninguém a conta disso.
Durante muito tempo, eu sonhei com meus trinta anos. Idealizei essa fase como um marco de estabilidade, de conquistas. Hoje, fico feliz se conseguir chegar aos trinta e cinco com vida e com o mínimo de dignidade para sobreviver.
Não sei se quero chegar aos cinquenta. Os últimos dois anos me fizeram questionar se a vida realmente vale a pena. Não é só tristeza. É o cansaço de quem teve esperança por tempo demais. É duro perceber que nem sempre o esforço resulta em recompensa.
Talvez por isso eu não queira ter filhos. Não saberia como garantir nem o básico. E se não posso oferecer nem isso, é melhor não tê-los. Quero quebrar os ciclos de pobreza, de frustração, de dependência emocional. Não porque eu odeie a vida, mas porque também não a amo.
Estou viva. E, por enquanto, isso basta.
Aceito as tristezas como parte do pacote. Não seria egoísta de interromper a minha vida. Mas anseio que esse ciclo termine um dia e que termine com serenidade, com o mínimo possível de sofrimento.
Eu só quero poder partir em paz.

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