domingo, 14 de setembro de 2025

O preço dos sonhos


 Nota da autora
:

Este texto é um desabafo pessoal. Não é um pedido de ajuda, nem um convite à tristeza, é só uma forma de organizar sentimentos e dar voz a pensamentos que também fazem parte da vida. Escrevo para não sufocar, para não esquecer quem sou. Se você se reconhecer em alguma linha, saiba que não está só.



Quando eu era criança, visitei o apartamento de uma amiga da minha mãe. Era pequeno, silencioso, e tinha um pote de chocolate na sala. Não lembro da disposição dos móveis, nem da decoração, mas lembro da sensação: aquele lugar parecia o retrato perfeito da liberdade. Uma televisão enorme, o silêncio que só existe na ausência de filhos, e o doce disponível sem precisar dividir.

Naquele dia, decidi que um dia moraria sozinha. Aquilo se tornou meta.

Hoje, aos trinta, moro sozinha. O sonho se realizou — mas só em parte. Meu apartamento é alugado e custa 70% do meu salário. A televisão está ali, mas não funciona. Ainda assim, deixo ela na sala. Talvez porque ocupe espaço, talvez porque me ajude a manter viva a ideia de que um dia tudo vai funcionar. O pote de chocolate? Nunca existiu. Não cabe no orçamento.

Apesar disso, não considero que foi uma má decisão. Morar sozinha sempre foi um desejo profundo, antigo. A liberdade de estar comigo mesma, de organizar as coisas à minha maneira, de viver no meu próprio tempo. Mas é impossível ignorar o preço que essa liberdade cobra.

Meu salário é baixo, mesmo com um bom nível acadêmico. No começo, era frustrante demais. Doía. Chorei muitas vezes por não conseguir pagar o básico, por não poder sair, por precisar racionar a comida do mês. As limitações financeiras me sufocavam e, às vezes, ainda sufocam.

Aprendi a não reclamar tanto. Tento ser grata pelo que tenho. Isso me ajuda a valorizar o pouco que conquistei. Não tenho muito, mas tenho um teto, uma cama, alguma comida e, sobretudo, paz. Sei que isso já é mais do que boa parte das pessoas têm.

Essa mentalidade me ensinou a não transferir para os outros o peso das minhas escolhas. A vida que eu levo é minha e não posso jogar sobre ninguém a conta disso.

Durante muito tempo, eu sonhei com meus trinta anos. Idealizei essa fase como um marco de estabilidade, de conquistas. Hoje, fico feliz se conseguir chegar aos trinta e cinco com vida e com o mínimo de dignidade para sobreviver.

Não sei se quero chegar aos cinquenta. Os últimos dois anos me fizeram questionar se a vida realmente vale a pena. Não é só tristeza. É o cansaço de quem teve esperança por tempo demais. É duro perceber que nem sempre o esforço resulta em recompensa.

Talvez por isso eu não queira ter filhos. Não saberia como garantir nem o básico. E se não posso oferecer nem isso, é melhor não tê-los. Quero quebrar os ciclos de pobreza, de frustração, de dependência emocional. Não porque eu odeie a vida, mas porque também não a amo.

Estou viva. E, por enquanto, isso basta.

Aceito as tristezas como parte do pacote. Não seria egoísta de interromper a minha vida. Mas anseio que esse ciclo termine um dia e que termine com serenidade, com o mínimo possível de sofrimento.

Eu só quero poder partir em paz.

terça-feira, 27 de setembro de 2022

O perigoso direito de ter opinião

 


Benedito Cardoso dos Santos, aos 44 anos, foi tragicamente assassinado em seu local de trabalho após uma discussão. Marcelo Aloizio de Arruda, de 50 anos, foi morto a tiros durante uma discussão em sua própria festa, sendo agredido mesmo após cair no chão. Francisco Manoel da Silva, 40 anos, perdeu a vida a facadas após um desentendimento em um bar. Davi Augusto de Souza foi baleado na perna durante uma discussão dentro da igreja onde congregava, tudo isso motivado por divergências políticas. As consequências dessas discordâncias são alarmantes. O simples ato de pensar de maneira diferente gera debates e discussões frequentemente resultando em desfechos negativos. Relacionamentos familiares, como pais que deixam de se comunicar com filhos, e amizades que se desintegram, tudo por não compartilharem o mesmo posicionamento político. Atualmente, a facilidade com que as pessoas se envolvem em conflitos políticos, a ponto de romperem laços, reflete a fragilidade dos relacionamentos, conforme destacado pelo sociólogo Zygmunt Bauman. Embora a teoria de Bauman explique sobre esse comportamento, ela não é uma justificativa plausível. Desavenças políticas têm raízes profundas em nossa história, como por exemplo, evidenciado pela Guerra de Canudos durante os primeiros anos da República no Brasil. O líder religioso monarquista Antônio Conselheiro desafiou as autoridades republicanas, resultando em conflitos e mortes de inocentes. O Arraial de Belo Monte, uma comunidade rural e autossustentável, provocou desconforto entre religiosos, imprensa e a elite da época. As diferenças tornaram-se intoleráveis, levando à impossibilidade de coexistência harmoniosa. O regime republicano falhou em atender às demandas da comunidade, criando um vazio que o Arraial preencheu. O cenário político atual reflete uma falta de atenção às necessidades da população como um todo. Em uma democracia saudável, os governantes deveriam abordar as necessidades de todos os cidadãos, mas a atual polarização e disseminação de ódio revelam uma seleção de grupos pelos candidatos com base em crenças e ideologias, em vez de atender às demandas coletivas. A liberdade de opinião, embora valiosa, é obscurecida pelo caos político atual. Após as eleições, quando as tensões diminuírem, resta questionar se sobreviverão relacionamentos quebrados durante essa guerra moderna. Alguém será eleito, mas onde estarão aqueles dos quais nos afastamos ao defender esse político?

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

O silêncio do governo sobre a morte do congolês Moïse



Moïse Mugenyi Kabagambe foi morto de forma brutal no último dia 24 no Rio. As imagens do crime que circulam nas redes sociais, mostram alguns homens agredindo o jovem congolês de 24 anos de idade, após segundo informações de seus familiares, ter ido cobrar o atraso do pagamento no valor de R$ 200 ao gerente do estabelecimento onde trabalhava. A violência cometida contra Moïse chocou o país e tem tido ampla repercussão e comoção do público, que tem pedido justiça e levantado o debate sobre xenofobia. 


Mesmo sendo um assunto que tem movimentado a internet nesses últimos dias, o ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, que está sob o comando da ministra Damares, não se posicionou sobre o ocorrido. A ministra tem feito diversos discursos sobre outros temas, como por exemplo, associar a gravidez precoce à exposição de crianças no Tiktok. A ministra, em suas redes sociais, também se concentrou em fazer comparação do governo atual com o do ex-presidente Lula, que criou em 2016 uma oficina de “desprincesamento” de meninas com verba pública. 


Embora a ministra ainda não tenha feito uma publicação ou nota sobre a morte de Moïse, o Ministério das Relações Exteriores emitiu uma nota lamentando o ato de violência contra o jovem e afirmou que espera que os envolvidos sejam punidos o mais rápido possível. Seria imprescindível que o Conselho Nacional de Direitos Humanos também pudesse demonstrar interesse nesse caso, principalmente pela conexão histórica. O Congo foi um dos países onde mais negros foram forçados a virem ao Brasil para serem escravizados. A Embaixada do Congo exigiu em nota, respostas das autoridades brasileiras.

quarta-feira, 3 de março de 2021

A juventude e o meio ambiente


 

As questões ambientais têm ocupado o centro das discussões por um período significativo. Desde a Revolução Industrial, ficou evidente que o novo modelo de produção traria consequências prejudiciais ao meio ambiente. A emissão de gases industriais desencadeou um efeito estufa, aquecendo o planeta, e previsões indicam que a Terra se tornará inabitável. Problemas como queimadas, desmatamento, gestão inadequada de resíduos e práticas do agronegócio contribuem para a degradação ambiental. Contudo, surge a pergunta crucial: quem realmente se preocupa? A relação da nova geração com a sustentabilidade é superficial, com poucos demonstrando interesse em compreender, aprofundar-se e pressionar o governo por medidas efetivas.


O consumismo desenfreado cresce exponencialmente, impulsionado pelo marketing agressivo das empresas, que instiga as pessoas a acreditarem na necessidade incessante de adquirir produtos. Influenciados por redes sociais, televisão e entretenimento, raramente há reflexão sobre a origem desses produtos, seu impacto ambiental e os valores das marcas em relação à sustentabilidade.


No âmbito alimentar, uma sociedade permeada por doenças psicossomáticas enfrenta desafios em sua relação com a comida. A indústria, visando lucro, promove alimentos pouco saudáveis, enquanto o acesso a uma dieta equilibrada muitas vezes é restrito à elite. A educação alimentar e financeira não é prioridade em todas as escolas públicas.


Cobrar consciência ambiental de uma pessoa que vive na periferia, trabalha intensamente e precisa cuidar dos filhos torna-se uma tarefa impossível. Quem, então, será responsável por essa cobrança? Diante de problemas sociais sérios no Brasil, como a má qualidade da educação, saúde e transporte, a juventude precisa lutar por um futuro justo e seguro. Se as demandas preservacionistas não forem atendidas, que legado restará para as próximas gerações?


O atual governo brasileiro demonstra indiferença às questões ambientais. Declarações desdenhosas, como a do presidente Jair Bolsonaro, revelam uma postura preocupante. A nomeação de Ricardo Salles como ministro do meio ambiente, um indivíduo com histórico de crimes ambientais, exemplifica a falta de compromisso com a preservação. Suas ações, como propostas de fusões prejudiciais aos órgãos ambientais, destacam a urgência de profissionais e movimentos engajados na proteção da natureza.


O desmatamento recorde na Amazônia, aliado a práticas prejudiciais como garimpo ilegal, uso excessivo de agrotóxicos e comercialização de terras indígenas, exige uma resposta enérgica. Profissionais engajados, cobrança política e divulgação de informações são essenciais para enfrentar essa destruição ambiental.


Contudo, como essas informações alcançarão uma juventude cada vez mais distante da política? Como mobilizar a população e tornar a sustentabilidade uma pauta de interesse público? O desinteresse é palpável, mesmo com ativistas lutando por mudanças. A conscientização demanda mais vozes, estratégias inovadoras e a participação ativa da sociedade.


A responsabilidade pela situação atual recai sobre os brasileiros, que muitas vezes escolhem candidatos sem compromisso ambiental. A crença de que áreas urbanas não serão afetadas é equivocada, como evidenciado por enchentes causadas por infraestrutura precária. A indiferença se manifesta em atitudes cotidianas, como o descarte inadequado de resíduos, poluindo praias e mares, e o consumo irresponsável.


A mudança de hábitos simples, como a separação de resíduos, o uso de sacolas reutilizáveis e a preferência por meios de transporte sustentáveis, fazem a diferença. A conscientização individual é fundamental para criar uma sociedade mais comprometida com a preservação ambiental.    

Onde descartar seus resíduos: https://www.ecycle.com.br/postos/reciclagem.php